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A Renascer Produções Culturais organiza o Seminário Internacional de Crítica Teatral desde 2005 evento que reúne estudantes, profissionais e estudiosos de diferentes formações acadêmicas em um compartilhar de experiência, opinião e conhecimento dos mais diversos países, com o propósito maior de fazer avançar o desenvolvimento do discurso crítico sobre a criação teatral, em todo o mundo. O exercício da crítica de teatro como disciplina e a contribuição para o desenvolvimento das suas bases metodológicas constituem, assim, a prática do Seminário Internacional de Crítica Teatral, levada a cabo por críticos do teatro e uma gama de especialistas nas áreas de conhecimento que entrecruzam comunicação, história, filosofia, arte, literatura e teoria teatral, dentre outras. O Seminário Internacional de Crítica Teatral é um projeto que busca implementar no estado de Pernambuco um espaço permanente de debate sobre a estética teatral contemporânea. A edição 2011 tem como tema o Teatro fora dos Eixos. Todas as atividades desenvolvidas pelo seminário terão como base a discussão das poéticas cênicas que estão se propondo em produzir trabalhos que estão fora do cânone do teatro ocidental.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Seminário de Crítica Teatral - Edição Manaus


*Leidson Ferraz

Pela primeira vez, o Festival de Teatro da Amazônia (FTA) abre espaço em sua programação para receber um Seminário de Crítica Teatral. Organizado já há quatro edições na capital pernambucana, o evento, realizado pela Renascer Produções Culturais, contou com a presença do historiador amazonense Jorge Bandeira em agosto último. “Foi através deste contato, e graças a parceria com a Federação de Teatro do Amazonas, que conseguimos expandir o evento para além do Recife, uma ideia que nos perseguia já há alguns anos, principalmente por conta da nossa presença em Manaus desde 2006, em eventos como o próprio FTA e a Mostra de Teatro do Amazonas”, diz Luciano Rogério, um dos produtores da iniciativa.


No Recife, o Seminário de Crítica Teatral já possui um caráter internacional e dele já participaram importantes críticos e pensadores da arte teatral, como Sábato Magaldi (SP), Barbara Heliodora (RJ), Kil Abreu (SP), Vivian Tabares (Cuba) e Ian Herbert (Inglaterra). Nesta primeira edição na capital amazonense, de 11 a 14 de outubro, das 15 às 17h, no Centro Cultural Palácio da Justiça, com entrada franca, o evento tem seu foco na dramaturgia nortista, com a presença do jornalista e pesquisador teatral Leidson Ferraz, do professor de teatro e crítico Wellington Júnior, ambos do Recife, de Wlad Lima, dramaturga e diretora teatral do Pará, além do manauara Jorge Bandeira. “Esta é uma oportunidade não só para nós mesmos conhecermos melhor o trabalho de alguns importantes dramaturgos do Norte, mas do próprio público que frequenta o FTA perceber detalhes destas escritas”, lembra Luciano Rogério.

Na programação, além de um olhar apurado sobre a atual dramaturgia nortista, obras de Wagner Mello (É Proibido Jogar Lixo Neste Local) e Sérgio Cardozo (Carmen de La Zone) serão analisadas, traçando paralelos com outras peças teatrais, não só brasileiras, mas de vários países também. Após esta inserção em Manaus, o Seminário de Crítica Teatral já mantém negociação com cidades em outros estados, como Londrina, no Paraná, São Paulo e Rio. “Estamos muito felizes por esta expansão de um evento criado no Recife, mas com vistas a acontecer em todo o país, afinal, a crítica teatral é um importante diálogo entre os criadores artísticos, a imprensa, e o público, que deve ser valorizada e apreciada em todo o território brasileiro”, conclui Luciano. O evento conta com produção local da própria FETAM.

Confira a programação:

1◦ Seminário de Crítica Teatral do Amazonas

Dia 11 de outubro
Panorama da Dramaturgia Amazonense (por Jorge Bandeira)

Dia 12 de outubro
Carmen de La Zone, de Sérgio Cardozo (por Wellington Júnior)

Dia 13 de outubro
É Proibido Jogar Lixo Neste Local, de Wagner Mello (por Leidson Ferraz)

Dia 14 de outubro
A Dramaturgia da Floresta (por Wlad Lima)

Mais informações: renascerproducoesculturais@bol.com.br

*Leidson Ferraz, é jornalista, ator e pesquisador teatral

7º Festival de Teatro da Amazônia / De P... a P...

DE P... A P... DA PAQUERA AO PARTO



TUDO CABE NO SONHO

“Meu coração, não sei por que,
bate feliz, quando te vê...
E os meus olhos ficam sorrindo,
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim, foges de mim...”
Pixinguinha

Sem nenhuma pretensão o Baião de Dois levou a platéia para o palco do Teatro Amazonas e fez com que vivesse um momento sublime do teatro, um sonho. Três clowns costuram cenas que sustentam a linha mestra do espetáculo e, apenas as luzes invertidas da ribalta, nos lembram, constantemente, que o picadeiro tornou-se lugar imaginário. O que impressiona, de saída, é a desconstrução de qualquer possibilidade de uma produção mais elaborada, que procura o glamour para dar suporte à realização do teatro infantil. Figurino ou objetos cênicos mais elaborados estariam em conflito com o contexto escolhido pela direção do espetáculo, tamanha é a simplicidade com que os atores brincam em suas fabulosas estórias e manipulam seus adereços.

Ao início, pois.

“De P... a P... Da Paquera ao Parto”, criado por Selma Bustament e Cleyton Nobre, para o Grupo de Teatro Baião de Dois, alcançou todos os seus objetivos. Divertiu, emocionou e despertou boas sensações nos espectadores que foram na manhã do último sábado, assistir a essa apresentação, concorrendo na categoria infantil, dentro do 7º. Festival de Teatro da Amazônia. O texto, em verdade, é apenas um roteiro, um guia que dá possibilidade para que pantomima cubra toda a ação do espetáculo, sublinhado por uma suave trilha musical que liga os quadros. Palavras, em alguns momentos apenas. Enredo simples. Uma trupe de clowns vai de cidade em cidade, contando estórias que mostram o processo da paquera, passando pelo casamento e finaliza no parto.

O laboratório que revela o clown no Baião de Dois, vem de longe. Selma trouxe em sua bagagem quando trocou os palcos de São Paulo por Manaus. Trouxe a experiência vivida com o Lumis, escola de palhaços, e divide agora com Clayton Nobre e Dennys Carvalho o aprendizado. Nasce assim, o trio de personagens que vive diversas situações em torno do amor, tendo a paquera, o ciúme e a paixão como ingredientes que aquecem as sensações do espectador e provocam boas gargalhadas. Trata-se do mesmo trio, recorrente em diversos momentos da dramaturgia universal, que vem desde a Commedia Dell´Arte com a Colombina, o Pierrot e o Arlequim, por exemplo, até os dias de hoje, quando a clown Candura, interpretada por Selma Bustamante, faz promessa a Santo Antônio que lhe dê um casamento.

Dois pretendentes se apresentam e vivem situações hilárias como a cena da Serenata, da branca de Neve, de Romeu e Julieta, ou a de Rapunzel. Mesmo que exista liberdade entre os quadros, podendo ser apresentado em partes, constata-se uma costura, com linha grossa, que permite ao espectador acompanhar os conflitos amorosos do trio em seus quadros, até que Candura escolha seu amado e tenha seu (s) filho (s), como sendo uma só estória. Aí é que reside o trunfo do espetáculo. Foi elaborado com tanto zelo que mesmo reconhecendo algumas fragilidades na interpretação do elenco e na amarração das cenas, nada tira o brilho e o vigor do trabalho desses três atores. Afinal, quando o palco é usado pelo sonho, tudo cabe nele. Parabéns ao Baião de Dois, melhor dizendo, parabéns ao Baião de Três.

*Chico Cardoso, crítico teatral.





7º Festival de Teatro da Amazônia / Tira a Canga do Boi

Tira a Canga doi Boi / Porto Velho

BRINCADEIRA E CIDADANIA
*Jorge Bandeira

A tradição nordestina na linhagem de Ariano Suassuna apresenta-se no Teatro brincante de TIRA A CANGA DO BOI, do Grupo Raízes do Porto, com direção de Suely Rodrigues. Os repentes e as trovas, com os eventuais sons de percussão e pandeiro, recheiam o espetáculo , que lida com as trovas e também com o caricatural dos personagens típicos do nordeste, carregando no sotaque e nos trejeitos atuleimados dos atuadores.

É um auto de Bumba-meu-boi, com boizinho e tudo. E a graciosa Ema, pivô das situações que desencadeiam a divertida trama. A vida dos brasileiros que vivem e sobrevivem na estrutura corrompida pelo poder e pela política é tratada aqui com a merecida e bem-vinda jocosidade, caso contrário estaríamos num eterno rio de lágrimas e de promessas políticas de melhorias, essas sim duradouras e intermináveis.

O populismo é o condutor do enredo, as loas que rimam com “mulher boa”, o “pitititito” para reforçar o menorzinho, e um cabedal de termos que pululam do texto de Marcos Freitas e que adjetivam as mais prosaicas situações desta montagem teatral. A referência a fatos recentes de nossa vergonhosa política são inseridos na história, as malas de dinheiro(mala preta) e o dinheiro na meia são duas destas referências, e que fazem o público rir de imediato.

Mateus, o matuto, Catirina e Bastião, o Patrão gorducho, tipos teatrais de uma tradição que perde-se no tempo, mas que são devedores de uma tradição que tem início nos longínguos tempos da formação do povo brasileiro, ainda na colonização do Brasil. O Capitão de merda, desculpe, LACERDA, é a representação deste coronel de barranco tão caro na vida de nortistas e nordestinos. Em alguns momentos percebe-se que a trama perde fôlego, o que é decorrência de 50 minutos de dança, música e interpretação neste jogo feito às vistas do público, numa arena no palco do Teatro Amazonas. Dona Joana, por exemplo, é a que mais deixa transparecer esta falta de vigor, e os figurinos que ela trocava em cena, ocasionalmente causavam dispersão na atriz, com excessivo zelo na troca de seu figurino em cena aberta.

A sequência de maior hilariedade, sem dúvida, é aquela onde o Capitão é castigado, sua roupa é tirada e ele fica de ceroulas, e ainda propõe-se que ele seja “amarrado a um pé de tucumã”. É sado-masoquismo puro. A sequência da morte do boi é bem executada, sob as marcas de um bumbo, num féretro contagiante, de choro e saudade pelo boizinho perdido, mas que depois regressa ao mundo do brincar.

O espetáculo de uma hora de duração, com as cores vibrantes de seu figurino, na tradição dos autos folclóricos do Brasil, dos bois de axixá, de mamão, enfim, dos bois que percorrem este Brasil continental, deixa uma mensagem ao eleitor, nas vésperas de uma eleição presidencial, na patética figura de um Dr. Vitalício, que leva o engodo em seu comício, na esperança de um novo 171, todos são convidados pelo Raízes do Porto a refletir sobre o poder de decisão neste momento crucial da vida brasileira.

Educação, saúde, segurança, cultura, copa do mundo, desmatamento, para tudo o Dr. Vitalício tem uma solução imediata para este pacato eleitor: DEIXE COMIGO! Um espetáculo da cidadania, no dia do primeiro debate dos dois candidatos a Presidente do Brasil no segundo turno. E assistimos ao melhor debate, com arte e divertimento.

*Jorge Bandeira é autor do texto As Donas do Apocalipse.
Manaus, 11 de outubro de 2010.

7º Festival de Teatro da Amazônia / Hoje sou um, Amanhã outro

Hoje Sou um Amanhã Outro

O REI NÃO ESTÁ NU, ESTÁ DE FRALDA! Valei-me Qorpo-Santo!
*Jorge Bandeira


O Rei geriátrico é posto em cena na peça HOJE SOU UM: E AMANHÃ OUTRO, pela Cia Vitória Régia, regida por Nonato Tavares, na sequência de uma trilogia programada para este singular e inclassificável autor doTeatroBrasileiro: Qorpo-Santo. O ciclo fecha-se, segundo nos indicam, com “As Relações Naturais”. Vamos à peça: O regime político aos frangalhos, um reinado louco que está perdido nas próprias burocracias que engendrou, mas trata-se de uma farsa barroca, onde o encenador prioriza o que de melhor encontra-se em Qorpo-Santo, o brincar na cena, a liberdade sem limites no criar as mais prosaícas circunstâncias que fazem da trama uma delícia de se acompanhar, feito súditos da insanidade. E a brincadeira não nos deixou nestes 40 minutos em que pontificou este rei, da mesma linhagem que fez surgir, tempos depois, obviamente por pura coincidência, o UBU REI de um certo Alfred Jarry.

A inserção dos elementos “regionais”: o boi, a toada, os políticos locais, nada escapou dos éditos e decretos lunáticos deste barroco rei, que ostenta como forma ultrapassada, a linguagem quinhentista. Isso nos meados do século XIX,, quando o romantismo que envolvia a realeza no Brasil já estava sucumbindo às trapaças republicanas, ou seja, o Rei já está velho, caduco e as fraldas devem ser colocadas nele para que a merda real não escorra pelo palácio, para que o poder republicano não entre com sua higienização e peça a cabeça do Rei, como aconteceu na Revolução Francesa. Coisas do poder, uns estão equilibrados nele, enquanto outros tentam entrar e se locupletar dele, de qualquer forma ou meio. Maquiavélico Rei, mas que trama apenas em sua incapacidade de ser são, lúcido.

A montagem de Nonato Taveres é de uma elegência em detalhes, como é de praxe em suas obras. A roupa como estética do barroco acompanha o zeloso trabalho de Koia Refkalefsky(que também é a Rainha), e importante destacar que este barroco funciona com poucas variações cromáticas, onde o vermelho e o negro são as mais evidentes no palco, o que facilita a iluminação, com precisas alternâncias de focos e de refletores e suas tonalidades.

O quinhentismo linguístico foi uma opção de garantir o registro da época de Qorpo-Santo, e a cavalaria galopa de forma absurda, e lembra os cavaleiros medevais do Monthy Pyton no “em busca do cálice sagrado”. As referências a Alfred Jarry e ao clássico personagem do Ubu Rei são notórias, e que coroa de Rei é aquela, o efeito cênico é deslumbrante, não dá para imaginar mais aquele Rei sem a sua estonteante coroa. A pomposidade do figurino, a maquiagem, tudo foi calculado com zelo máximo pela produção e pelo encenador.

A loucura pelo poder atravessa etapas históricas, e prossegue por toda civilização, antiga e futura, e entre a tênue linha entre sanidade e loucura, encontra-se o poder, os mandatários, semi-loucos num mundo que teima a se tornar curado, uma tarefa vã, de terrível constatação. Qorpo-Santo já alertava em seus textos sobre estas questões paradoxais, existencais e políticas. Vivemos a insanidade de nossos refluxos de lucidez. A música na medida certa, sem arroubos desnecessários ,fazem da sonoplastia ao vivo desta obra de 40 minutos um espetáculo meticuloso, não barulhento, que chega aos ouvidos de forma suave, mas contundente.

As damas que acompanham a Rainha são involúcros de uma disfarçatez, dançarinas provocantes de um boi bumbá de “Paristins”, por isso que o Rei passeia em seu boullevard de Versailles. Para relaxar, para se esquecer...Os Soldados, com seus figurinos à la sadomasoquismo, lembram os centuriões na versão moderna das dominatrix. Os decretos absurdos pululam deste palácio feito colônia de loucos, onde o ministro tenta, em vão, subverter uma ordem, claro que não consegue, pois o caos domina sempre o ambiente, mesmo nos momentos de aparente controle físico e emocional do Rei, mesmo nos seus destemperos de personilidade e na sua senilidade.

Um dado curioso e que remete aos aparatos da nobreza no Brasil: nos tempos do império realmente havia uma equipe que tratava da higiene do Rei, e alguns tronos tinham um fundo falso, espécie de vaso sanitário, para quando o Rei participasse de uma longa reunião não precisasse interrompê-la, evacuando ali mesmo no “trono-vaso”. Um escravo, então, recolhia a merda real e a levava no penico real para a rua real. Era desta forma mesmo. A Atualidade em Qorpo-Santo é incontestável, e por mais que seja uma precipitação e até mesmo preciosismo patriótico vincula-lo às vanguardas teatrais que o sucederam, é notória sua capacidade de inovar nas letras e na dramaturgia feitas naquele momento histórico, nos meados do século XIX.

Um teatro límpido e objetivo, de uma trupe que funciona perfeitamente bem no que se propões a colocar em cena, e mesmo que algumas falas tenham se “atropelado” ou que engasgaram na voz da Rainha, tudo isso é irrelevante, pois a perda de voz da Rainha também representa no meu ensejo de observador não implacável, a própria fraqueza do poder real. A Cenografia econômica de Nonato Tavares, um bobo musical e um trovador que são este duo da sala real, tudo se encaixa nesta proposta de cena. Uma cena, aliás, que de tão simples levou o público a aplaudir o “voo da cavalaria”, num movimento tão simples, mas que transmitia uma maneira de brincar e de sonhar, tal qual uma Cavalgada das Valquírias num palco onde este mesmo público fez esforços pendulares com a cabeça e pescoço, este um único problema a ser resolvido, evitar este incômodo ao espectador, pois o mesmo plano de cadeira no palco do Teatro Amazonas impossibilita visão total das cenas. Mais isso não chega nem a coçar, pois o riso aparece e depois a gente trata do torcicolo. E viva o Rei!

*Jorge Bandeira é dramaturgo, autor de A Carroça de Pandora do Largo de Sabá Tião I e II.

Manaus, 10 de outubro de 2010.