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A Renascer Produções Culturais organiza o Seminário Internacional de Crítica Teatral desde 2005 evento que reúne estudantes, profissionais e estudiosos de diferentes formações acadêmicas em um compartilhar de experiência, opinião e conhecimento dos mais diversos países, com o propósito maior de fazer avançar o desenvolvimento do discurso crítico sobre a criação teatral, em todo o mundo. O exercício da crítica de teatro como disciplina e a contribuição para o desenvolvimento das suas bases metodológicas constituem, assim, a prática do Seminário Internacional de Crítica Teatral, levada a cabo por críticos do teatro e uma gama de especialistas nas áreas de conhecimento que entrecruzam comunicação, história, filosofia, arte, literatura e teoria teatral, dentre outras. O Seminário Internacional de Crítica Teatral é um projeto que busca implementar no estado de Pernambuco um espaço permanente de debate sobre a estética teatral contemporânea. A edição 2011 tem como tema o Teatro fora dos Eixos. Todas as atividades desenvolvidas pelo seminário terão como base a discussão das poéticas cênicas que estão se propondo em produzir trabalhos que estão fora do cânone do teatro ocidental.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Renascer Produções no Congresso Brasileiro de Teatro


Congresso Brasileiro de Teatro (CBT)


Nos dias 26 e 27 de março de 2011, a cidade de Osasco, através de sua Secretaria de Cultura, sediará o Congresso Brasileiro de Teatro. Proposto pela Cooperativa Paulista de Teatro e com o apoio da Rede Brasileira de Teatro de Rua, o Congresso espera reunir mais de 150 representantes de todo o país, entre movimentos, redes, cooperativas, associações, sindicatos, acadêmico, fóruns, grupos e companhias. Entre os presentes estarão representantes de Pernambuco Roberto Carlos (Confederação Brasileira de Teatro), Luciano Rogério (Renascer Produções Culturais) entre outros.

O objetivo do Congresso é estabelecer as plataformas de luta da categoria para os próximos anos, debatendo a necessidade de implantação de um programa nacional de fomento ao teatro – o Prêmio Teatro Brasileiro -, assim como as diretrizes do Plano Setorial de Teatro que fazem parte do Plano Nacional de Cultura. Os impedimentos que o teatro de rua vem sofrendo no país e a “privatização dos espaços públicos” também ganharão espaço no congresso.

Já foi confirmada a presença, através do Ministério da Cultura (MinC), da Ministra da Cultura Ana de Hollanda às 15h do dia 27 de março, Dia Mundial do Teatro definido pela UNESCO.

A presença da ministra soma-se à já anunciada participação do Presidente da Funarte, o ator, diretor e produtor Antônio Grassi e do Secretário de Políticas Culturais do Minc, Sérgio Mamberti, que estarão no congresso no mesmo dia e horário.

O CBT ocupará o Centro Municipal de Formação Profª. Águeda Thereza Binottti (Rua Marechal Rondon, nº. 263 – Centro) e terá a seguinte programação:

Dia 26/03
10h Abertura com a presença do Prefeito de Osasco Sr. Emídio Pereira de Souza.
- *Cezar Viera – A história dos últimos congressos de teatro no Brasil – O encontro de Arcozelo em 1979.
- *Luis Carlos Moreira – O processo de construção do programa Prêmio Teatro Brasileiro.

14h Plenária e debate sobre:
- Prêmio Teatro Brasileiro
- Plano Setorial de Teatro
- Os impedimentos sofridos pelo teatro feito na rua e a “privatização dos espaços públicos”

Mediadora:
Tiche Viana – Movimento Levante Cultural – Campinas (Barracão Teatro)

19h Apresentação teatral da Trupe Olho da Rua, de Santos, com “Terra Papagalli”, no calçadão Antônio Agu. (Em frente ao Shopping Plaza/Centro de Osasco.)
Dia 27/03 (Dia Mundial do Teatro)

9h – Plenária
14h – Aprovação da carta do Congresso Brasileiro de Teatro de Teatro.

19h – Encerramento com apresentação da Cia dos Ventos, de Osasco, com “O Preço do Feijão”, no calçadão Antônio Agu. (Em frente ao Shopping Plaza/ Centro de Osasco.)
* Cesar Vieira – Líder do Teatro União e Olho Vivo, que tem mais de 40 anos de atividades.
* Luis Carlos Moreira – Diretor do Engenho Teatral e um dos principais redatores do projeto Prêmio Teatro Brasileiro.

Realização:

Cooperativa Paulista de Teatro
Secretaria de Cultura de Osasco
Rede Brasileira de Teatro de Rua

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Premiados do 7º Festival de Teatro da Amazônia

Premiados e Indicados do 7º Festival de Teatro da Amazônia


Vencedores Temática Infantil

Melhor Maquiagem – Douglas Rodrigues (Essa Tal Natureza)
Melhor Pesquisa Musical – Paulo Marinho (Flicts – o Musical)
Melhor Iluminação – Chico Cardoso (Flicts – o Musical)
Melhor Cenário – Douglas Rodrigues, Dione Maciel e Rivaldo Monteiro (Essa Tal Natureza)
Melhor Figurino – Dione Maciel e Douglas Rodrigues (Essa Tal Natureza)
Melhor Texto – Francis Madson (Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?)
Melhor Direção – Ana Cláudia Motta (A Princesa e a Lua)
Melhor Atriz Coadjuvante – Raquel Santos (Essa Tal Natureza)
Melhor Atriz – Carol Santana (Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?)
Melhor Ator Coadjuvante – Diego Monzahho (Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?)
Melhor Ator – Vicente Henrique (Uma Aventura Mágica contra o Monstro Brigueiro)
Melhor Espetáculo – Brincadeiras (Cia de Teatro Metamorfose)

Vencedores Temática Adulta
Melhor Maquiagem – (OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra (Cia Cacos de Teatro)
Melhor Pesquisa Musical – Suely Rodrigues e Tino Alves (Tira Canga do Boi)
Melhor Iluminação – Daniel Mazzaro (É Proibido Jogar Lixo Neste Local)
Melhor Cenário – Daniel Mazzaro (Flores D’America)
Melhor Figurino – Sibele Gomes (Flores D’America)
Melhor Texto – João Denys (Flores D’America)
Melhor Direção – Diego Monzahho ({OFF} Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra)
Melhor Atriz Coadjuvante – Eliézia de Barros (Flores D’America)
Melhor Atriz – Suely Rodrigues (Tira a Canga do Boi)
Melhor Ator Coadjuvante – Alexandre Lemos (Tira a Canga do Boi)
Melhor Ator – Arnaldo Barreto (Dama da Noite)
Melhor Espetáculo – (OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra (Cia Cacos de Teatro)

Indicados Temática Infantil
Melhor Maquiagem
Essa Tal Natureza
Era Uma Vez...
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?

Melhor Pesquisa Musical
Flicts – o Musical
Essa Tal Natureza
Era Uma Vez...
De P...A P...da Paquera ao Parto

Melhor Iluminação
Flicts – o Musical
Essa Tal Natureza
Era Uma Vez...
Brincadeiras
A Princesa e a Lua

Melhor Cenário
Essa Tal Natureza
Brincadeiras

Melhor Figurino
Essa Tal Natureza
Brincadeiras
Era Uma Vez...
A Princesa e a Lua
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?

Melhor Texto
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?
Flicts – o Musical
A Princesa e a Lua
Brincadeiras
Essa Tal Natureza

Melhor Direção
A Princesa e a Lua
Essa Tal Natureza
Brincadeiras
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?

Melhor Atriz Coadjuvante
Essa Tal Natureza

Melhor Atriz
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?
De P...A P...da Paquera ao Parto
Era Uma Vez...
Brincadeiras

Melhor Ator Coadjuvante
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?

Melhor Ator
Uma Aventura Mágica contra o Monstro Brigueiro
Essa Tal Natureza
Brincadeiras
A Princesa e a Lua
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?

Melhor Espetáculo
Brincadeiras
Essa Tal Natureza
A Princesa e a Lua
Por que Pular Degrau Se A Gente Pode Voar?
Flicts – o Musical

Indicados Temática Adulta
Melhor Maquiagem
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra

Melhor Pesquisa Musical
Tira Canga do Boi
Eretz Amazônia
Gilda, o Romance da Moça Morta na Cidade Flutuante

Melhor Iluminação
É Proibido Jogar Lixo Neste Local
Feliz Ano Novo
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra
Dama da Noite

Melhor Cenário
Flores D’America
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra
Dama da Noite
É Proibido Jogar Lixo Neste Local

Melhor Figurino
Flores D’America
Feliz Ano Novo
Hoje Sou Um, Amanhã Outro
Tira A Canga do Boi
Dama da Noite
É Proibido Jogar Lixo Neste Local

Melhor Texto
Flores D’America
Tira A Canga do Boi
Eretz Amazônia
Dama da Noite
Gilda, o Romance da Moça Morta na Cidade Flutuante

Melhor Direção
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra
Hoje Sou Um, Amanhã Outro
Tira A Canga do Boi

Melhor Atriz Coadjuvante
Flores D’America
Hoje Sou Um, Amanhã Outro

Melhor Atriz
Tira A Canga do Boi
Hoje Sou Um, Amanhã Outro
Gilda, o Romance da Moça Morta na Cidade Flutuante
Flores D’America
Feliz Ano Novo

Melhor Ator Coadjuvante
Tira A Canga do Boi
Gilda, o Romance da Moça Morta na Cidade Flutuante

Melhor Ator
Dama da Noite
Feliz Ano Novo
Hoje Sou Um, Amanhã Outro
Tira A Canga do Boi
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra
Eretz Amazônia
É Proibido Jogar Lixo Neste Local
Gilda, o Romance da Moça Morta na Cidade Flutuante

Melhor Espetáculo
(OFF) Inferno ou Lave os Céus Para Que Eu Morra
Hoje Sou Um, Amanhã Outro
Tira A Canga do Boi
Dama da Noite

*Informações retiradas do Jornal Diário do Amazonas, assim mesmo, constando apenas o nome dos espetáculos

domingo, 17 de outubro de 2010

7º Festival de Teatro da Amazônia / Flores D'América

FLORES D'AMÉRICA

FLORES D’AMÉRICA: ESTREIA DE TEXTO DE JOÃO DENYS NO TEATRO AMAZONAS


*Jorge Bandeira

João Denys é um dos principais dramaturgos do Nordeste, do Brasil. O autor, diretor e professor potiguar, radicado em Pernambuco legou para nosso teatro Deus Danado e Encruzilhada Hamlet, marcos incontestáveis do Teatro feito em nosso país. Agora temos FLORES D’AMÉRICA, dirigido por Daniel Mazzaro e que teve estreia nacional no Teatro Amazonas, no 7º Festival de Teatro da Amazônia. O texto de João Denys é de 2005, quando venceu o cobiçado prêmio “Hermilo Borba Filho” de dramaturgia do Recife.

Os temas que se destacam nesta história bem elaborada e encenada são aqueles do mormaço sertanejo, o cangaço, a dura peleja das mulheres, a religião que encobre tudo, e escamoteia tantas outras coisas. A protagonista deste drama sagaz é Dona América, uma mulher destemida e ousada, que viu filhos morrendo e que luta pela dignidade das filhas Soledade e Das Dores, onde o criador dramatúrgico inspira-se na linguagem popular e no cordel para florear seu texto de uma riqueza vocabular extraordinária. É, antes de tudo, uma lição para todos do cabedal de termos e adjetivos que constituem-se numa cosmogonia da vida nordestina, uma literatura de alto valor antropológico. O texto já seria importante só por este elemento, mas vai além com esta montagem, permeada de ousadias e de um calibre cênico tão forte quanto as armas sertanejas de Dona América.

A velha América, calejada pela vida e cotidiano implacável é o que conhecemos como carola, uma católica que preenche sua calejada vida com as santificações, com os quadros de imagens sagradas, com os terços e rosários, e que devota sua vida, em primeiríssima instância, aos deveres desta devoção. América é fruto direto desta tradição ibérica, de uma religião católica carregada de catolicismo, mas que possui um “charme” histórico que nenhuma vertente do protestantismo consegue alcançar, pois os condicionantes milenares deste culto católico está impregnado em nossa memória, sejamos ou não católicos. É este Brasil mítico de que trata a peça de João Denys, e ele, sabiamente, busca amparo na visão genial de Federico Gárcia Lorca para ter suas criaturas de cena no patamar digno da esfera shakespereana, algo que já fez com primor com sua “Encruzilhada Hamlet”.

O coro que percorre e costura todas as cenas garantem o relevo cômico do espetáculo, aliviando a tensão do drama, valorizando a cena subsequente. E nisso tudo, nesta costura eterna protagonizada pela atuação vívida de Socorro Andrade, mas uma tradição literária nos é brindada neste palco iluminado pela boa direção de Mazzaro: o Realismo Fantástico, nas idas e vindas desta história, entre o real e o imaginário, onde a verdade é feita da e pela boca dos personagens, em especial da própria América e de suas filhas dissimuladas e emuladas ao cataclisma do cinismo e da possessão.

A força do ritual e seus desvios entre o sagrado e o profano é outro achado magistral desta dramaturgia tão máscula e vigorosa, sem dúvida uma das mais vinculadas ao universo do nordestino, pelo poder de comunicação, pela capacidade de colocar em cena a fabulosa tradição oral e das narrativas fabulares do repente, do cordel e dos contadores de história. O espaço cênico é um lugar sagrado, mas que é democraticamente profano, com atos coletivos de celebração, seja nas orações, nos cortejos do coro ou no novenário.

O cenário é esta projeção de um certo desbotamento dos elementos desta religião opressora, mas que não se despreende tão facilmente de seus adeptos, é da cor da terra, de um fauvismo, de uma elaboração de naif estigmatizado como as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, diria Dona América. É o triunfo do kitsch cristão, dos quadros de Nossa Senhora, do Sagrado Coração. De um tempo que se cristalizou, por isso o relógio sem ponteiros, parado, centralizado no meio do palco, aprisionando aos personagens em sua “hora eterna”.

A direção de Mazzaro, nesta estreia, conseguiu levar seus atores e atrizes ao desencadear das situações desta sacralidade e profanidade, desta teogonia satírica, o que a afasta de um Milagre, pois as santificações todas são meros exemplos para a superação via Realismo Fantástico, e é nessa Macondo nordestina que adentramos, espectadores cientes do jogo, que emociona e acalenta, que nos assoberba, mas que também nos bate com a palmatória. A atuação de todos os agentes cênicos foi organica, com alguns deslizes no texto, numa estreia compreensíveis, e todos fizeram um trabalho de interpretação emoldurando a atuação de Socorro Andrade dos “socorros” que a protagonista precisou, o que fez de sua performance algo bom de se apreciar.

Confesso que no início achei que a voz de Socorro Andrade não aguentaria o jorro de clamor do personagem, num rebento de histerismo vocal que pensei que afetaria a voz da atriz. Enganei-me, pois Socorro Andrade manteve, ao longo do espetáculo, sua voz audível, sem enfraquecer a sua atuação. A maquiagem de Jonatas Sales também foi precisa neste trabalho, sem carregar em demasia as faces, e o trabalho de sonoplastia de Leonel Worton fez com que as passagens sonoras fluíssem naturalmente, destaco as partes incidentais mais intimistas, onde a sensação de estar num local calmo e tranquilo logo em seguida era quebrado pelas situações de conflito tão bem engendradas pelo dramaturgo, e nisso, neste contraste, a sonoplastia teve seu mérito. O figurino, assinado por Sibele Gomes, captou as essencias da atmosfera do texto, com seus mantos e roupas carregadas da ensolação, de um traje que carregava, em si, o peso de uma situação desconfortével. E aqui vou falar da nudez das irmães, da naturalidade tão brilhantemente alcançada pelas duas atrizes, que em nenhum momento deixaram suas dignidades cair por terra. Foi uma cena linda, com lindas mulheres nuas, mas não aquela nudez feita para o deleite dos leitores de revista masculina, mas a nudez como arte, a nudez em seu aparato naturista, natural. Com este espetáculo Daniel Mazzaro insere, definitivamente, a nudez num patamar cênico que há tanto tempo ela merecia, pois estamos no Amazonas, onde esta tradição cultural indígena raramente é posta em cena com este despojamento, com esta coragem. E o público compreendeu perfeitamente o valor intrínseco desta nudez, e se divertiu com a situação das duas irmães nuas, armadas e vestidas de pele, e que saem, naturalmente nuas, pelo corredor iluminado do Teatro Amazonas. Um marco de nossa cena para não esquecermos. Apelativo? Jamais, da maneira precisa com que Mazzaro o fez, trata-se de arte de alto quilate, e aplaudo as atrizes por este pacto sincero de seus corpos com a proposta do espetáculo. O público viu naquela nudez natural um vínculo perdido com a naturalidade do corpo, sem apelações, sem segundas intenções, e por ter a verdade cênica frente a seus olhos, não esqueceu a trama para ver apenas as atrizes nuas. Tudo transcorreu naqueles minutos de nudez total, na mais santificada paz dos sentidos estéticos. Ponto para a direção.

A face de Dona América é calejada, e ela tem sua fortaleza em sua religião ancestral, ela se refugia em seu santuário, com as bençãos do “Padim Ciço”, com sua idolatria amada, seu coração e sua mente são vias sacras de sua existência, de suas dores e decepções. A trama de sua pretensa morte é feita de forma brilhante por João Denys, são diversas e variadas visões, visagens da tradição oral, envolvendo a mitificação, as lendas rurais de um distante nordeste perdido no tempo de nossas memórias, o mito e seu poder de convencimento e uma tradição oral que representa a história em si deste nordeste.

O uso de planos alternados no cenário demonstram que esta ritualização foi pensada em nível cênico nos moldes dos altares sacros, sendo esta visão perceptível ao público no formato de palco italiano. O eterno girar dos pedais das máquinas de costura, de uma urdidura que jamais cessa, de um trabalho de Sísifo na tradição de Albert Camus, este absurdo existencial, são outras referências que destaco, além, obviamente, da shakesperiana projeção das três mulheres nesta imagística de suas imagens figurativas. É o grotesco em cena, e seu vínculo com a morte, onde a cabeça degolada de Dona América foi alvo de um cem número de situações, até ser costurada pela própria. É o cataclisma do caos e do absurdo, onde o jogo mágico e surreal ganha ares de obra-prima.

As costureiras cosem seus infortúnios, jogando suas mandingas e maldições, num círculo interminável de trapaças, de desvios de conduta, de profanidades, fugindo da severidade cristã medieval de Dona América, a matriarca, a mãe da cruzada cristã contra as inutilidades do mundo físico. A linguagem nordestina em sua dignidade “além TV Globo”, não colocando aqueles sotoques animalescos tão comuns pelos novelistas, é outro mérito da direção e do trabalho interpretativo do elenco. A força desta palavra é exatamente não ser caricatural, pois as circunstâncias cênicas já apontam para estas aleivosias, e o excelente texto de João Denys é o principal mote para o funcionamento deste Teatro.

Por conveniência estilística estaciono aqui esta escrita crítica de FLORES D’AMÉRICA, estou na metade de minhas considerações sobre a peça bem oquestrada e dirigida, numa estreia com os erros naturais de uma estreia, mas erros que não redundaram em prejuízos da encenação. Muita coisa anotei, vou continuar, com certeza, este pensar crítico sobre um trabalho de alta magnitude dramatúrgica, belo e perspicaz, que só eleva a nossa tradição nortista e nordestina na História do Teatro feito no Brasil. Merda a todos! Parabéns ao elenco.

*Jorge Bandeira é amazonense de Manaus. Apreciador do Teatro local. Escreve sem se aborrecer, tem na escrita uma forma de prazer .

Manaus, 17 de outubro de 2010.

Encerramento do 7º Festival de Teatro da Amazônia.

sábado, 16 de outubro de 2010

7º Festival de Teatro da Amazônia / Por Que Pular Degraus se a Gente Pode Voar?


PORQUE PULAR DEGRAUS SE A GENTE PODE VOAR?

SE A GENTE PODE VOAR, PORQUE TROPEÇAR NOS DEGRAUS?


* Por Chico Cardoso

O ambiente é estranho, deveria nos situar na garagem de um edifício, entretanto, o palco desnudo, rasgado do sonho, imprime uma sensação demasiado realista, enquanto o onírico é evocado para um jogo teatral que propõe uma transição do mundo real, para o imaginário. Nele, uma rainha cheia de feitiços decretou exílio aos personagens que poderiam, juntos, lhes dar a eternidade. Nessa garagem duas crianças ou quase adolescentes, ficam presas pela queda de energia e tentam usar os degraus da escada do prédio, mas a menina cai gravemente machucada no pé, o que parece ser a chave para a entrada dessa rainha má no mundo real e os arrasta para o seu mundo. Quando os garotos se dão conta de que estão em outro universo, é tarde para voltar ou acordar do pesadelo. Daí começa uma aventura nada empolgante. Mas explico porque mais adiante.

Para alcançar a eternidade, a rainha manda que os meninos embarquem numa viagem estranha para apanhar um pelo do gato prateado, um pedaço da fita do vestido da mulher cara de leque e uma chave com uma espécie de lorde inglês futurista e, caso fracassem, jamais retornariam à garagem do edifício.

Sim, é um espetáculo infantil. Ou pelo menos, na visão da Cia Cacos e do autor/diretor Francis Madson. O que é muito interessante é a liberdade com que essa companhia de teatro, formada por jovens artistas, vem experimentando no palco amazonense. Propõem sair das convenções do teatro infantil e oferecem um quebra cabeça com peças nada convencionais que discutem medo, angustia e o temor que a maldade se torne perene. Ainda que de forma estranha, a cena é fascinante.

Tim Burton, no cinema, por exemplo, criou uma linguagem muito distante da Disney, para contar suas estórias. Seu mundo é macabro e sombrio, mas sempre calçado no onírico, que abranda a linguagem e a deixa poética para o publico infantil, está nos filmes “A Noiva Cadáver” e no mais recente “Alice no País das Maravilhas”. Assim, penso que a Companhia poderá dar um tratamento mais radical na proposta, para que ela se feche e encante mais.

Agora explico porque não empolgou. O que ainda impede a amarração da proposta é a direção acanhada e descuidada, principalmente, com as técnicas vocais necessárias para desnudar o palco. Isso fez com que o texto escapasse, prejudicando a construção cênica da estória. O público não entrou no jogo. A Rainha exagerada em suas expressões, voz esganiçada e ilegível, apagou o brilho do figurino criativo e da própria personagem. Totalmente ilegível ficou a voz do ator que interpreta o Lorde. Ele jogou todo seu texto fora. A mulher cara de leque, que pareceu ser belíssima, interpretada por Taciano Soares, toma distância do espectador, justamente por não deixar fluir a voz e por vezes, esconder as falar que tornariam mais claras as intenções da personagem, neste caso foi o figurino, que mete o leque na frente da boca do ator. Destaque para o gato, interpretado por Dyego Monzzaho, cuja projeção vocal alcançou o espectador e foi a personagem mais cativante, paradigma a ser seguido na companhia. Quanto a menina e menino, não fica claro se crianças ou adolescentes, posto que o ator proponha em sua interpretação uma limpeza daquele irritante traço infantilóide, para o qual a atriz resvalou. Descuido, portanto, da direção.

O texto é contemporâneo, a soma de seus ingredientes fortalece a proposta inovadora para o jogo teatral. O resultado no palco acaba não valorizando o que é simples na dramaturgia, pois o diretor tentou colocar-se à frente do autor. Se nos é permitido voar na imaginação, a direção não poderia ter tropeçado nos degraus. Esse é o ponto em que a companhia deverá se debruçar nos próximos laboratórios. A direção deste espetáculo precisa redimir o elenco dos tropeços e realinhá-lo para uma interpretação limpa e clara. De qualquer forma temos um belo insight a caminho e, no futuro da Cia Cacos, podemos ter revelações surpreendentes para o teatro infantil.

* Chico Cardoso, diretor teatral.